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sexta-feira, 20 de maio de 2022

Moda e personalidade

Um assunto que muita gente já conversou comigo, inclusive me questionando, sobre como algumas pessoas "param" no tempo e continuam gostando de coisas antigas, que de certa forma não estão mais em evidência. O que acontece: eu não acredito na moda, e acho que há um tipo de pessoa que segue alguma tendência criada por outra pessoa, mas quando ela faz isso, deixa a própria essência de lado, ou seja, nega a própria personalidade pra se uniformizar a um grupo. Eu lembro da minha infância por exemplo, nos anos 90, tinha muitos grupos musicais diferentes dentro do mesmo estilo. Pagodeiros, sambistas, grupos de axé, rap, MPB, e eu não gostava de nenhum deles, inclusive dentro da minha casa era muito comum, mas eu acabei me identificando mesmo com o Raimundos em 1999, o que acabou sendo um diferencial, além de uma identificação autêntica com algo que combinou com a minha personalidade. Dois anos depois, o Raimundos teve seu fim, e eu com todos os discos comprados, tentei deixar a banda de lado também, tentei gostar do Charlie Brown Jr, o que também acabei gostando, aí depois veio o CPM 22, que eu gosto mas não tanto, e um monte de outras bandas que eu gosto mas não como o Raimundos: O Rappa, Pitty, Penélope, Skank, etc. Então eu pensava o seguinte: por que eu vou deixar o Raimundos de lado, se eu sinto vontade de ouvir as músicas? Então eu simplesmente retomei, e entendi que pra mim, o Raimundos podia passar de moda que eu continuaria gostando. Até que, de repente, por volta de 2007, a banda retoma e tá até hoje ai. Esse exemplo serve pra muitas outras coisas que também aconteceram assim: os filmes dos anos 80 e 90 que eu adorava assistir, como por exemplo, Gremlins, Os Goonies, Jurassic Park, Pânico, Máquina mortífera, Eu sei o que vocês fizeram no verão passado, todos esses e muitos outros eu realmente gostava e ainda gosto muito de reassistir. Isso serve também pros gibis da turma da Mônica que eu era assinante quando era criança, pras fitas VHS, fitas K7, Walkman, Discman, ouvir rádio, vitrola, tocar violão, todas essas coisas combinam muito com a minha personalidade. Além disso, eu passei praticamente toda a minha infância, adolescência e metade da vida adulta sem celular, o primeiro que eu tive foi em 2009, eu já tinha 23 anos, e era só pra ligar, não tinha rede social nem Whatsapp, que só veio em 2016, ou seja, eu vivi 30 anos da minha vida da forma tradicional, presencial, e não virtual. E onde é o problema nisso? Nada mais disso está na moda na década de 2010 e 2020.

Eu podia parar de ouvir rock, gostar de funk e sertanejo. Eu podia trocar toda minha coleção de fitas e CDs e ouvir tudo pela internet apenas. Eu podia deixar meus filmes antigos de lado e tentar gostar dos filmes de super herói, filmes baseados em séries de livros. Podia sim. Só que são coisas que eu já tentei, mas não gostei. Faltou algo. E esse algo é justamente a identificação. Até por que daqui a pouco isso tudo passa de novo, e as pessoas vão mudar atrás de outra coisa, que elas nem sabem o que vai ser. Tenta imaginar o seguinte: o pagode está no auge, aí alguém vai e começa a se vestir como pagodeiro, pinta cabelo de loiro e tudo; depois isso passa e vem a época do reggae, a pessoa deixa uns dreak no cabelo, passa a andar largado; depois vem a época do funk, o cara passa a falar várias gírias, bonezinho baixo, óculos espelhado, camisa de marca; aí isso tudo passa e vem a época do emo, a pessoa deixa uma franja enorme, passa a se vestir de preto, andar de all star com uma mochila cheia de broches; aí passa de novo isso e vem a época do sertanejo universitário, a pessoa deixa um corte de cabelo e barba específico desses cantores, passa a usar umas roupas mais apertadas... Isso sem contar o tanto de hábitos que vem junto com isso: beber demais, fumar narguile, virar vegano, tatuar o rosto, além do que eu acho pior que é viver uma vida mais virtual do que presencial. Eu estou usando exemplo de música e estilo, mas isso serve pra tudo. Consegue imaginar alguém que faça isso tudo e tenha personalidade? Eu não.

E o que é a personalidade então? É o que você tem de único. E a moda não dá espaço pra isso, é o comportamento de grupo. Todo mundo tá fazendo então vamos fazer também. E é aí que tá o erro. Somos pessoas específicas, o tênis que cabe no meu pé 42 não vai caber num pé 36. Isso serve pra tudo. Só que as pessoas estão se adequando a isso, escondendo quem realmente são e o que querem pra agradar a maioria, com medo de críticas ou de serem deixados de lado. Só que não vão, elas vão encontrar outras pessoas que entendam e gostem das coisas que ela goste também. E o que eu percebo mais é que quem questiona sobre isso é uma galera muito nova ainda, na faixa dos 18 aos 25 anos, que precisa que alguém diga o que eles têm que fazer. Ou seja, chegamos realmente ao fim da humanidade, pois esse comportamento me lembra os zumbis dos filmes, apenas vagando por aí.  E o que eu percebo também é que essa galera costuma andar com pessoas da mesma faixa de idade e isso cria uma ilusão de que todo mundo está fazendo a mesma coisa, quando não está: o grupo que segue a moda é muito pequeno realmente. E no fundo, a moda quer lançar o "novo" mas esse novo não existe. Tudo fica velho muito rápido. A gente cresceu vendo Chaves, que era dos anos 70, assistindo desenhos animados dos anos 40, grande parte dos livros que a gente leu na infância é de 1800 e pouco. Se você for na origem mesmo vai entender que o novo não existe. Ou seja, a moda não existe. Ou seja, quem segue a moda está se auto negando em troca de nada. Tem até uma música do Raimundos que fala o seguinte trecho: "Eu sei que tem gosto pra tudo. A moda vai, a moda vem, o tempo passa e eu não mudo". Também me remete a música da Pitty, Máscara: "Tira a máscara que cobre o seu rosto. Seja você, mesmo que seja estranho". Ou do Charlie Brown: "Se for fazer uma coisa então faça com vontade. Seja você, não fure os olhos da verdade. Não sou como você quer que eu seja, eu sou quem eu sou".

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